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Friday, January 27, 2012

No ponto de ônibus, de Leonardo Rossato


Estava eu no ponto de ônibus as 10:30 de uma noite de sexta-feira. Chovia sem cessar. Parecia um dilúvio. Estávamos todos encolhidos no ponto procurando por um espaço seco quando comecei a observar as pessoas. Observava do pé à cabeça e não me importava se elas me encarassem, pois poderiam estar me observando do pé à cabeça também.

Havia umas 10 pessoas lutando por um espaço como se fosse uma guerra e cada palmo ganho era uma conquista. As mulheres e crianças levavam vantagem com a falsa simpatia dos homens adultos brancos. No entanto eram apenas 3 no ponto: uma freira, uma adolescente de mais ou menos 15 anos e uma mulher com ar de executiva beirando os 40.

Comecei a observar a freira. Será que ela queria mesmo ser freira? Será que não lhe tinham imposto a religião e com medo de pensar por si só ela teria continuado com uma vida sem perguntas? Comecei a pensar sobre freiras no geral. Será que elas não têm desejos como uma mulher "comum"? Porquê uma pessoa não pode amar a Deus e amar as pessoas, neste caso os homens? São amores completamente diferentes. Não entendo.

Neste momento a freira me olha como se soubesse todos meus pecados, viro meu rosto de medo e meus olhos se encontram com belas pernas da garota. Ela tem jeito de Patrícia ou Bárbara, ou ainda Andréa. Rica. O que será que está fazendo num ponto de ônibus as 10:30 da noite? Escola. É, está voltando da escola e talvez seu pai ou sua mãe (se não são separados) estão com o carro quebrado e ela, apesar de mostrar um leve sorriso, não gostaria de estar ali.

Patrícia, Bárbara, Andréa deve ter um namorado alienado como ela. Devem conversar sobre coisas completamente fúteis. Devem assistir um programa para adolescentes mais fútil ainda e depois de tocar uma música bem romântica em inglês na televisão eles não saberão a letra e se beijarão. Deve estudar estatística na faculdade. É, ela tem mesmo cara de quem gosta de números. Muito bonita, mas não me atrai. Tem um corpo muito bem torneado para não dizer que era muito gostosa, mas não agüento gente burra.

Volto a olhar para suas pernas e tenho um súbito desejo de tê-la. Ela me olha com um sorriso falso nos lábios e eu retribuo com a mesma falsidade. Fazemos nosso joguinho de falsidade por uns cinco minutos e cansado paro de olhá-la.

A executiva de 40 anos pisa no meu pé. E que pisada! Ela está vestindo uma blazer bege muito bonito, mas é masculinizada. Ela me lembra a Margaret Tatcher. Deve pensar que precisa ser igual aos homens para se igualar. É o pior tipo de feminismo que existe. Não deve ser casada, pois nenhum homem deve conseguir desejá-la sexualmente. Bem, deve haver, mas ela não tem tempo para isso. Apenas trabalha. Pensa que está ajudando no progresso do país. O mesmo país que nos viras as costas. Mas ela não pensa nisso porque deve ter uma casa grande, um cachorro bravo, um vibrador escondido atrás da televisão e uma tara por pés, pois não para de olhar os meus. Seu carro deve estar quebrado também.

Como estar pensando isso destas pessoas sem ao menos conhecê-las? Posso estar perdendo muito em julgá-las assim. Mas não consigo parar de inventar histórias das pessoas. E se elas estiverem inventando histórias de mim. E se a freira estiver imaginando meus pecados; e se a menina estiver pensando se sou homem mesmo, pois lhe virei o rosto; e se a executiva estiver me desejando e querendo chamar a minha atenção porque pisou no meu pé de novo?

Passa um ônibus e a menina, a executiva, a freira e mais um homem com dois filhos pequenos e sujos e com a roupa visivelmente doadas sobem. A menina me olha e me manda um beijo e instintivamente contribuo. Ela joga pela janela o número de seu telefone mas não o pego. Não sei porque.

Sobram eu e mais três homens: uma criança de 12 ou 13 anos, um cara um pouco mais velho do que eu com uns 18 ou 19 anos e um senhor de 60 anos que só pigarreia. Deve ser por tanto fumar na vida. Ele tem uma cara de artista boêmio.

A criança que senti ao meu lado não tinha cara de criança. Quando o vi escondi meu relógio e pensei em esconder minha carteira, mas seria muito estúpido da minha parte fazê-lo ao seu lado. Ele deve estudar em escola pública e como tantos outros sofrer com o ensino miserável que temos neste país. Nem deve saber que o governo não quer cabeças pensantes em todo o país. Este adjetivo é para as elites, mas ele não deve saber. Não deve saber também que poderia reivindicar por isso porque não lhe ensinaram o que é de seu direito desde pequeno.

Seu pai deve ser um alcoólatra e quando chega em casa deve bater em sua mãe e nele e em seus irmãos. Como toda família pobre deve ter uma família grande. No mínimo dez num barraco pequeno, enquanto a classe média/alta tem em média quatro ou cinco por família. E estes da classe média/alta acham que o país está superpopulado por causa dos pobres, mas os pobres não tiveram a mesma educação paga e sim uma educação pública e, consequentemente, muito inferior.

Ele deve roubar para comer, mas o que estaria fazendo no ponto de ônibus? Procurando mais uma vítima? Porque quando vejo uma pessoa mais pobre penso que ela irá me roubar? Minha educação? Os prefeitos, vereadores e deputados que escolho para meu país me roubam todos os dias e usam terno. Acho que preciso combater meu preconceito.

Cansado de esperar sento no banco do ponto ao lado do garotão malhado vestido com uma camiseta escrito "Gym". Está de walkman, calça jeans, boné do Chicago Bulls, tênis Nike e tomando Sukita (a publicidade deve fazer a cabeça dele). Consigo ouvir um som estranho do walkman e concluo ser som de academia. Está segurando uma bolsa de academia.

Deve ter 18 ou 19 anos, aparência atlética, barba bem feita e uma namorada bem bonita. Trabalhar com o pai, fazer faculdade para alguma matéria biológica ou educação física. Deve nunca ter lido um livro na vida. Exceto "1001 maneiras de enlouquecer uma mulher - vol. 3", que sua namorada deve lhe ter dado de aniversário.

Não deve ser romântico. Ele tem cara de quem faz amor com a namorada e dorme. E ronca. Tem tudo na vida mas não tenho inveja nenhuma dele. Ele me interessa tão pouco que percebo que o artista boêmio que só pigarreia está me fitando. Passaram dois ônibus e não fui embora ainda. Não consigo parar de inventar histórias, mas agora só não fui embora porque o artista boêmio está me encarando.

Ele me oferece um cigarro e digo que não fumo. Pergunta-me as horas e digo que não estou de relógio (claro que menti). Ele disse que me viu escondendo o relógio. Eu sorrio e pergunto se estava me observando. Ele diz que às vezes ele observa as pessoas no ponto de ônibus e fica inventando histórias sobre elas. Eu disse que faço o mesmo e um súbito barulho de uma derrapada corta nosso diálogo.

Olho para o seu rosto e imagino os traços de quando era jovem. Deve ser um poeta mal entendido pela sociedade, viveu nos anos 60, foi exilado, voltou, editou muitos livros mas poucos compraram, deve ter feito versos para todas as mulheres com quem dormiu, deve ser um intelectual que não demonstra tal inteligência quando está no bar com os amigos. Deve ter uma casa pobre de beleza, mas rica em livros. Um grande sebo dentro de casa com milhares de livros, deve dormir numa rede com livros abertos sobre o peito. Deve ser fã de Vinícius de Moares, Fernando Pessoa e Pablo Neruda.

Ele me olha de novo e pergunta meu nome. Eu digo e pergunto o dele. João. Um nome tão comum quanto as estrelas que brilham nos céus, ele diz. Pergunto se é poeta. Ele responde que não. Fico muito decepcionado e toda a história que imaginei sobre ele se quebra dentro de mim. Ele me consola dizendo que um dia escreveu poesias, mas hoje isto não compraria sua comida.

Digo que gostaria de seguir a carreira literária e ele me pergunta se tenho algo escrito na mochila que levo. Arranco uma folha de papel do caderno velho e usado e passo para as suas mãos também velhas e usadas. Ele lê, pigarreia, olha para as estrelas e lê de novo. Me entrega a folha de papel e me diz algo tão singelo mas que nunca esquecerei:

- Mesmo que todos lhe digam que seus textos são uma merda, que você é um péssimo escritor e que nunca irá publicar um livro. Mesmo que apenas sua namorada goste de seus versos e que seu pai os ache infantis e estúpidos. Mesmo que faça outra coisa de sua vida e que um bêbado te encha o saco num ponto de ônibus numa noite sem brilho, sem luar e chuvosa. Mesmo que tudo isto ocorra, nunca pare de escrever. Nunca pare de se expressar. O dia que você parar de escrever você morre. Então, não morra.

Sunday, January 15, 2012

Ciclopes, de Fabiano Moreira


O velho ciclope permanece imóvel, cheio de serenidade aparente, de humanidades beatíficas de jeans, bengalas e meias para proteger pezinhos do frio fumaça de boca.

A chuva continua a banhá-los... o som estalante das gotas mais relembra o estalar de madeira em meio as chamas e enquanto isso as estrelas vestem seus pijamas por detrás das brumas esverdeadas. O ciclope permanece quieto, simplesmente sereno, com o seu olho vermelho mirando o céu. Enquanto ele se cala eternamente, os televisores também se desligam e as pessoas refletem, elas dormem para acordar amanhã, elas se esquentam com o atrito faiscante do sexo. Ele continua calado. Ele e seus ainda mais gigantescos irmãos.

Fico me perguntando enquanto os observo, por que quando chove as pessoas não vão para a janela observar o espetáculo cinza? Por que acham mais interessante ver paredes limitantes do que o ar preenchido de gotas revolucionárias, ver um filme hollywood do que o susto de um estrondoso trovão? Se o velho ciclope pensa em algo, essa questão já deve ter lhe ocorrido. Quando a cidade acaricia o céu, quando o céu lambe sensualmente a cidade e ambos se unem numa peça além-shakespeare... o ciclope continua em silêncio, agachado, respirando e sendo respirado, adorado, torturado. Seus pensamentos circulam independentes, subindo escadas e descendo elevadores.

Deve ser bom ser ciclope. Nunca falam de si, nunca falam com ele, todos acham que é uma posse, mas a verdade é que ele os tem. Não que um ciclope seja possesivo. Nunca há culpa. Mesmo que nele exista um elevador de serviço ou que não caibam dentro dele todas as idéias da existência, jamais poderemos culpá-lo. Seus outros olhos sempre estarão acesos, de maneira aparentemente aleatória, um ciclope tem mais olhos do que aparenta.

Um dia Luana me perguntou se um ciclope pode ser masculino ou feminino, se eles se reproduzem... Deve ser bonito imaginar dois prédios se amando apaixonadamente, dois arranha céus namorando sob a chuva, aproveitando que ninguém se interessa em olhar as gotas. Eles se abraçariam e declamariam poemas quietos um para o outro. Tudo abafado pelos sussurros intencionais dos pingos. Pensei um pouco sobre a pergunta que ela me fez e respondi apenas que um ciclope não é macho nem é fêmea. Disse que "um ciclope é um ciclope". E a chuva continuou falando.

As luzes todas se apagaram e a cidade sentiu o veludo das trevas. E todos os pássaros estranhos, todas as lendas urbanas saíram rebolando e plantando bananeiras. Luana se abraçou em mim, usando o medo como desculpa para afeição... Acho que eu gosto das desculpas, embora encubram perguntas sem realmente responder algo, é sempre bom estar debaixo das cobertas, sem ver direito o que se passa, deixando-se guiar pela ausência da luz que nos desperta sentidos astrais.

Os peixes do meu aquário já não se assustam com o escuro. Quando criança eu cantava para eles dormirem e zelava pela sua segurança, eu tentava plantar um sorriso em seus rostos piscianos, mas nunca conseguia. Acho que não pode ser feito em cativeiro. Quando algum deles morria, eu tentava revivê-los, eu os imaginava vivos e sorridentes, saltitantes, juntos, amigos. Quando olhava, sua carcaça sumira. "Deus deve tê-lo levado", pensava. Depois descobri que eram comidos pelos amigos. Tive problemas com amigos na infância, eu era paranóico demais e demorou para entender o estranho ritual fúnebre dos peixes... percebi com o tempo que somos diferentes deles. Nós usamos roupas e pensamos que pensamos... Eles devem rir disso de vez em quando.

É incrível as coisas que a gente diz quando se está apaixonado, principalmente quando ao telefone, onde até as pausas silenciosas são consideradas palavras e contar sobre a sombra, a cor de uma tampinha ou o som de uma campainha torna-se assunto de importância máxima. Adoro ouvir Luana. É legal quando ela fica sem assunto e eu já não tenho mais nenhuma novidade para contar, nem a mais quotidiana delas. Sempre que isso acontece ela me lambe o rosto e as vezes mais do que isso...

Quando as luzes se apagam e estamos sozinhos, uma das melhores coisas a fazer é comermos uvas juntos, batendo um papo ou brigando. Brigar comendo uvas é uma ocasião especial. A gente faz isso sempre e quase chego a pensar que brigamos de propósito, só para romper o marasmo e adoçar a doçura da fruta com um sabor meio amargo. É incrível as coisas que se diz quando se está apaixonado.

Depois da meia noite eu a levo para casa. Sempre foi assim, menos hoje. Ela dormirá aqui. Não, não faremos sexo a noite toda. Dormiremos separados, devemos manter os padrões e os limites da moralidade sempre presentes... Até parece que você acreditou nisso não é ciclope?

Abri as cortinas para podermos dormir diante da chuva imensa que caía na paz. Sorrimos abraçados esperando que alguma coisa grande acontecesse, algo como uma aparição, um assalto, uma explosão nuclear por acidente. Mas não era nada disso, eram só gotas, uma atrás da outra, cada qual diferente para olhos atentos. Cada qual representando um mili-segundo de vida, valendo, agora. Isso foi tão empolgante para mim que quase sorri chorando.

As gotas foram embora. A manhã não vai chegar tão cedo e eu tento paralisar tudo, paralisar gotas no ar. Mas a goteira continua a gerar e gerar. E as gotas se espatifam no chão dando lugar à outras. Penso então: se eu não posso pará-las não quero vê-las cair e nem as outras seguintes.

Fecho os meus olhos sorrindo. Luana já fechou os dela à um bom tempo. Ouço um ônibus passar, ouço algo se quebrando na rua, um tiro na favela... eu ouço o piscar do ciclope.

Friday, January 6, 2012

A cripta, de Daniel Gomes

Você, reflete o criador, você não é um de meus filhos
Você, diz o mudo, você não chegará até ele
O fogo se alastra na solidão e o caminho é traçado
O peregrino arrepia-se.

Você, diz o surdo, você terá que chegar aqui
Você, reflete o criador, você terá de descobrir o segredo
O trovão se faz no silêncio e os passos prosseguem firmes
A cripta estremece.

Eu compreendo, reflete o peregrino, compreendo seu caminho
Eu vejo, diz o cego, vejo sua chegada
O raio se agita na escuridão e a jornada finda
A cripta estremece.

Eu sinto, diz o morto, sinto sua presença
Eu compreendo, reflete o peregrino, compreendo meu destino
O tudo se manifesta no nada e o portal é aberto
A cripta estremece.


A luz

Eu entendo, reflete o criador, entendo sua busca
Eu sinto, diz o morto, sinto seu vazio
O nada se manifesta como o tudo e um destino é cumprido
A luz esvaece.

Eu vejo, diz o cego, vejo nossa destruição
Eu entendo, reflete o criador, entendo seu desafio
A escuridão se agita como o raio e o embate tem início
A luz esvaece.

Você, reflete o peregrino, você está por trás da criação
Você, diz o surdo, você revela nosso segredo
O silêncio se faz como o trovão e uma máscara é quebrada
A luz esvaece.

Você, diz o surdo, você será destruído
Você, reflete o peregrino, você terá que me enfrentar
A solidão se alastra como o fogo e uma presença se cria
O peregrino arrepia-se.

O peregrino

Você, reflete o criador, você não terá o que busca
Você, diz o mudo, você irá me libertar
A solidão e o fogo se alastram e os dados rolam
O criador arrepia-se.

Você, diz o surdo, você irá me conhecer
Você, reflete o criador, você não pode alcançar o infinito
O silêncio e o trovão se fazem e algo se perde
A cripta estremece.

Eu compreendo, reflete o peregrino, compreendo seu temor
Eu vejo, diz o cego, vejo o brilho em seus olhos
A escuridão e o raio se agitam e o tempo cessa
A cripta estremece.

Eu sinto, diz o morto, sinto a fissura se expandir
Eu compreendo, reflete o peregrino, compreendo o seu erro
O nada e o tudo se manifestam e a tapeçaria cede
A cripta estremece.


O criador

Eu entendo, reflete o criador, entendo seu poder
Eu sinto, diz o morto, sinto o começo
O tudo e o nada se manifestam e o universo se separa
A luz esvaece.

Eu vejo, diz o cego, vejo o negro de seus olhos
Eu entendo, reflete o criador, entendo sua ira
O raio e a escuridão se agitam e a realidade se esquece
A luz esvaece.

Você, reflete o peregrino, você chegou ao infinito
Você, diz o surdo, você findou o caminho
O trovão e o silêncio se fazem e a existência se extingue
A luz esvaece.

Você, diz o mudo, você apagou as pegadas
Você, reflete o peregrino, você chegou a mim
O fogo e a solidão se alastram e a essência se apaga
O criador arrepia-se.